O problema do mal está tão profundamente inscrito na consciência moderna que já não se apresenta apenas como um tema de reflexão filosófica ou teológica, mas como uma verdadeira enfermidade da alma. Não se trata, sobretudo, de uma questão abstrata, mas de uma ferida existencial aberta. As duas grandes guerras, seus horrores jamais esquecidos, o espectro de um novo conflito mundial, os genocídios, as crises sociais, as pandemias, a violência que invade as ruas e os lares — tudo isto formou uma nuvem espessa que obscurece o espírito do homem contemporâneo. O mal deixou de ser uma simples interrogação para tornar-se uma obsessão coletiva, que em muitos se converte em desespero silencioso.
É dessa atmosfera sombria que nascem as doutrinas modernas do absurdo e do niilismo. Elas afirmam que o mundo não possui sentido, que a existência humana é produto do acaso e que o sofrimento não se explica a não ser pela irracionalidade do universo. Assim, dizem: se a vida é absurda, resta ao homem criar arbitrariamente seus próprios valores, moldar sua própria moral, viver com coerência apenas consigo mesmo, colher migalhas de felicidade passageira e suportar o resto com resignação ou revolta. Nada de metas últimas, nada de esperança transcendente — apenas a fidelidade ao impulso interior, ao instante, à ação sem finalidade objetiva, talvez guiada por nobres instintos, mas desprovida de significado.
No entanto, seria ingenuidade crer que esse estado de espírito nasceu em nossa época. Ele reaparece, com maior ou menor intensidade, em todos os tempos de decadência. É um vulcão que dorme nos períodos de ordem e florescimento, mas desperta nas épocas em que a história se converte em ruínas e a alma humana se sente órfã. A angústia do mal, afinal, é universal: dilacera pessoas, sociedades e civilizações.
Mas por que temê-la? Fugir desta questão seria recusar-se a encarar o destino de cada ser humano, o futuro da humanidade, o sentido do universo e, sobretudo, a própria noção de Deus. Diante do mal — seja moral, físico ou metafísico — a inteligência humana se vê forçada a perguntar: como conciliar a existência do sofrimento com a bondade e a onipotência divinas? Se Deus é bom, por que permite a dor? Se é justo, por que triunfa o ímpio e desaba o inocente? Se é santo, como tolera o pecado?
Assim, o problema do mal não é apenas uma questão lógica; é o drama da liberdade humana, da justiça divina e do amor supremo. Ele julga não apenas a história, mas o próprio homem; não apenas o mundo, mas a imagem que o homem faz de Deus. Encará-lo com honestidade é o primeiro passo, não para o desespero, mas para a verdade.
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