Discute-se, às vezes, para saber se a criança tem defeitos inatos ou se estes são adquiridos somente pela educação, pelos contatos com a sociedade ou, se acaso ocorrem, por deficiências físicas. Tais controvérsias supõem que se faz do defeito da criança uma ideia mais ou menos semelhante à que se tem do defeito de um tecido ou de uma porcelana. Na realidade, porém, a criança não é um objeto inerte e seus defeitos não são simples provas de um erro de fabricação ou de má qualidade da matéria-prima.
Ela é um ser vivo, dotado de uma alma espiritual e de uma liberdade nascente, sujeita a uma lenta e árdua formação. O que chamamos “defeito” é, antes, o sinal de uma luta interior entre o instinto, ainda desordenado, e a razão, que se vai despertando sob a ação da educação e da graça.
Se a criança não fosse sujeita à necessidade de se adaptar a uma sociedade preestabelecida, assim como às convenções e à moral desta sociedade, não haveria motivo para nos preocuparmos com a sua educação; sua expansão espontânea não correria risco de encontrar qualquer resistência, e o problema de seus defeitos, evidentemente, nem mesmo seria levantado. Mas, como o ser humano nasce ferido pelo pecado original — essa desordem interior que inclina ao egoísmo, à impaciência, à cobiça —, torna-se indispensável educar não apenas a inteligência, mas também a vontade e o coração.
Consideremos, por exemplo, colhendo ao acaso, num formulário de um “exame de consciência”, a desobediência, o furto, a inveja, a mentira... Como se poderá pretender que seja conforme o instinto natural obedecer — resistir ao desejo de apoderar-se de qualquer coisa que se deseja, sob o pretexto de que um outro é seu legítimo proprietário — suportar, com alegria, que o vizinho se beneficie dos prazeres que nos são recusados — enfim, dizer sempre, exatamente, o que o adulto chama a verdade, mesmo sendo ela desagradável e correndo o risco de arrastar a consequências aborrecidas?
O instinto natural da criança tende ao prazer, à posse e à afirmação de si; por isso, as virtudes da obediência, da sinceridade e da caridade não lhe são espontâneas, mas adquiridas lentamente, pela repetição dos atos bons e pela influência moral de quem a educa. Os psicólogos observam que é necessário um longo trabalho de maturidade intelectual para se obter uma noção clara e objetiva dessa verdade tão imperiosamente reclamada pelos moralistas. A criança mente, às vezes, não por malícia, mas por imaginação, medo ou desejo de agradar — e cabe ao educador, com paciência e firmeza, ordenar essas forças interiores para o bem.
No fundo, tudo isso não é, no início, uma questão de moral plenamente consciente, pois a criança ainda não colheu, como o adulto, os por demais famosos frutos da árvore da Ciência do Bem e do Mal. Ela vive, em certo sentido, num estado de inocência relativa, onde o bem e o mal ainda não se apresentam com toda a nitidez da escolha livre e deliberada. A palavra “defeito”, no que a ela se refere, não tem ainda pleno sentido; só o adquire, pouco a pouco, à medida que a criança vai crescendo, discernindo e tornando-se responsável por seus atos.
O defeito, então, não é uma imperfeição essencial do ser, mas uma forma particular e aberrante de reagir às exigências do mundo exterior; revela uma dificuldade de adaptação e marca um episódio da luta que opõe os desejos individuais e o interesse geral. Mas, vista sob o prisma cristão, essa luta não é apenas entre o indivíduo e a sociedade — é o reflexo, em pequena escala, do combate interior entre a natureza decaída e a graça redentora.
Educar, portanto, é cooperar com Deus na restauração da ordem moral na alma infantil. É ajudar a criança a vencer, pouco a pouco, o egoísmo natural, a aprender o domínio de si, a cultivar a verdade e a caridade. Cada “defeito” corrigido é uma pequena vitória da graça sobre a natureza, e cada queda, uma ocasião de humildade e de recomeço.
Assim, o verdadeiro educador não se escandaliza com os defeitos da criança; antes, vê neles o campo de sua missão e o sinal de uma alma que está em formação. E, à medida que essa alma se purifica e amadurece, o que era fraqueza transforma-se em virtude, e o que parecia obstáculo torna-se degrau de ascensão moral e espiritual.
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